Outubro 11, 2009
[página 1]
Eu tinha apenas um ano
Quando aconteceu meu primeiro contato com um A4.
[página 2 e 3]
– ” ! “
– ” : “
– ” , “
– ” . “
- ” ? “
– ” … “
– Ufa.
[página 4]
Foi engraçado.
Ele era tímido e acho que se assustou.
Ficou branco. Ou bravo.
[página 5]
Passei anos sem vê-lo.
[página 6]
Para encontrá-lo, eu tentava me esforçar…
Como ele era?
Retangular? Parecia com o formato do porta-retrato.
Lembrava que era branco!
[página 7]
Quando retomássemos contato
Eu sabia a reação dele…
se tornaria colorido
como todos outros que conhecia até os seis anos.
[página 8]
Eu já aprendera a falar, contar e quase a escrever…
Quando, aos 7 anos, sentado na caretira,
a professora me entregou a folha
e eu gritei:
É este! É este!
Depois disso, passei anos decorando aquele papel de desenhos, letras e números.
Outubro 11, 2009
de hoje em diante vou postar neste blog pequenas histórias infantis
Julho 11, 2009
para lá e para cá, disse o poeta manuel
gullar chamou o gato de gatinho
mas independentemente da ação ou do nome
nikita é uma gata zen budista
pois passa o dia a meditar se ação ou nome
lhe darão posteridade
e sem conclusão se levanta às 6 da tarde
pede comida e água e volta a seu estado preferido:
manuel ou gullar, qual será o anátema?
Julho 9, 2009
Quando eu vim da minha terra
Passei na enchente nadando
Passei frio, passei fome
Passei dez dias chorando
Por saber que de tua vida
Pra sempre estava passando
Nos passo desse calvário
Tinha ninguém me ajudando
Tava como um passarinho
Perdido fora do bando
Vamo-nos embora, ê ê
Vamo-nos embora, camará
Presse mundo afora, ê ê
Presse mundo afora, camará
Quando eu vim da minha terra
Veja o que eu deixei pra trás
Cinco noivas sem marido
Sete crianças sem pai
Doze santos sem milagre
Quinze suspiros sem ai
Trinta marido contente
Me perguntando “já vai?”
E o padre dizendo às beata
“Milagre custa, mas sai”
Vamo-nos embora, ê ê (…)
Quando eu vim da minha terra
Num sabia o que é sobrosso
Sabença de burro velho
Coragem de tigre moço
Oração de fechar corpo
Pendurada no pescoço
Rifle do papo-amarelo
Peixeira de cabo de osso
Medalha de Padre Ciço
E rosário de caroço
Pra me alisar pêlo fino
E arrepiar pêlo grosso
Que eu saí da minha terra
Sem cisma
Susto ou sobrosso
Vamo-nos embora, ê ê (…)
Quando eu vim da minha terra
Vim fazendo tropelia
Nos lugar onde eu passava
Estrada ficava vazia
Quem vinha vindo, voltava
Quem ia indo, não ia
Quem tinha negócio urgente
Deixava pro outro dia
Padre largava da missa
Onça largava da cria
E os pai de moça donzela
Mudava de freguesia
Mas tinha que fazer força
Porque as moça num queria
Vamo-nos embora, ê ê (…)
Eu sai da minha terra
Por ter sina viageira
Cum dois meses de viagem
Eu vivi uma vida inteira
Sai bravo, cheguei manso
Macho da mesma maneira
Estrada foi boa mestra
Me deu lição verdadeira
Coragem num tá no grito
E nem riqueza na algibeira
E os pecado de domingo
Quem paga é segunda-feira
Vamo-nos embora, ê ê (…)
Maio 30, 2009
depois de 3 idas ao oculista em dois meses, ele receitou óculos para vistas cansadas. vistas cansadas, acho que esse oculista não tem senso de ridículo. como ter vistas cansadas aos 33 anos? o fato é que os óculos ainda não se adaptaram a mim nem eu a eles. desde que comecei a usá-los há menos de uma semana, a impressão de que as distâncias se modificaram é muito estranha; também os outros sentidos ficaram afetados, já reparei que eu em algumas situações tirei os óculos para ouvir melhor. depois de mais de 150 mil anos, vou precisar me adaptar a uma nova visão frontal como os primeiros homídeos.
Maio 30, 2009
por conta do meu 33o aniversário na semana passada, guilherme conte me ofereceu um o volume de crônicas de rubem braga “as coisas boas da vida”. a organização de paulo mendes campos só deixou a desejar ao escolher por uma editora como a record que, além da duvidosa qualidade tipográfica, não traz sequer o ano da edição. confesso que já havia ciscado aqui e ali nos textos de rubem braga, mas nunca parei para lê-lo. talvez antes também não tivesse olhos pra ver o que estava diante de mim: a beleza, a leveza e a delicadeza do cotidiano, sem pequenos truques de texto ou sacadinhas espertas; associado a essas qualidades um texto fino e requintado que já não se encontra. agora o que mais me pegou realmente foi que ele parece que dilata o tempo de suas memórias com a paciência e a generosidade de um grande cavalheiro, essas finezas de saber a vida. por fim, o texto quase que naturalmente mistura as memórias do escritor com as do leitor. nesse primeiro contato, acabei topando com minha infância em itapetininga: o cheiro do café torrado no centro da cidade às 16h da tarde, as viagens para tatuí, a família que hoje não é mais sombra — e o mais assombroso: dar voltas e voltas sem ter traços de nostalgia.
Maio 19, 2009
flutua
essa bio-
-grafia
sem padrão
aves trans-
-lineam
o peso
um embornal
guarda
o caminho
Maio 19, 2009
Aos 33 tudo parece mais fácil.
Fevereiro 23, 2009
o sono organiza a vida. dá ritmo. desfaz mal-estar. quem não dorme, não tem sono, não sonha. sonhar é química. sem isso comer e olhar perdem escala. depois de comer e escovar os dentes. olhar no espelho. deitar. o corpo se alonga. a coluna descomprime. na manhã seguinte parece não haver absurdo. as horas não andam para atrás “apesar de”. mesmo sem dormir. mesmo tendo comido mal por meses. espero sentado nessa cadeira o sono. o sono não vem. o sono brinca de aparecer, depois some. as palavras me estranham. elas não são as coisas. quando as dizemos, elas são as coisas. é isso que permite alguma liberdade. dar ao que é aquilo que não é. se se puser um pouco de lado, fica o corpo. o que o anima é a palavra. é o ar. por isso dormir e sonhar. sem isso o ar se rarefaz. deito de lado, o quadril já está roxo, os olhos fundos. no espelho não há nada. sem roupa, sou eu mesmo. expiro. tento esvaziar os pulmões e o sono não vem. às vezes, sonho para fora do corpo, como o ar. a palavra se liga ao que não é palavra e não é meu. e está lá fora. quem sabe o sono.
Fevereiro 9, 2009
Diáspora é titulo do último conto ou do mais perfeito, segundo a opinião do próprio autor, o indefectível jornalista e contista mineiro Murilo Rubião. Publicado postumamente, por esforço de uma sobrinha, o conto agora consta da edição Contos reunidos, que saiu pela editora Ática. Lembrei-me do conto porque sua história material faz uma ideia de afeto.
Um dia, o autor toma um táxi e por lá esquece o envelope com o conto. Passa a vida publicando anúncios em jornais e revistas, quase que periodicamente, oferecendo recompensa etc. & tal, a fim de recuperar seu libelo. Sem obter êxito, pede à sobrinha em seu leito de morte que lhe prometa que irá encontrá-lo. Quando ela já encarquilhada, o conto dá sinal físico. E então é finalmente publicado.
Passei alguns anos atrapalhado na vida. Ganhei alguns quilos, cabelos brancos e porque não dizer, rugas. Talvez não seja necessário me perder tanto assim no táxi, com o nome diáspora. Talvez não precise morrer para entender a importância de coisas, mesmo as efêmeras. Talvez tudo passe em branco a maior parte das pessoas a minha volta. Mas não preciso esperar para dizer: “me desculpe” e “obrigado”.
As pessoas se aproximam e se afastam geralmente por motivos diferentes dos que imaginamos. Eu, aqui, ouvindo o marulho do trânsito, não alcança a vista um táxi. A sirene da loja ao lado dispara. Nem o ladrão está.